E Fez-se Alqueva...

Quando se espalhou a notícia de que tudo ia avançar parti para, por uma última vez, me encontrar com o rio da minha infância. O tal que era barulhento e companheiro, o que tinha fortes correntes e azenhas onde na Segunda-Feira de Páscoa se comia, ainda, o borrego.

As águas subiram; 100, 123, 139 - cota 152 m.
E eis que surge o maior lago artificial de Europa. Que sentimento tão português o de tomar acções irreflectidas com o pretexto de sermos os maiores. Não somos. Não temos de o ser.

O cenário que agora encontro é inadjectivável. À primeira vista, e para quem não conheceu, parece um cenário paradisíaco [pelo menos é assim descrito nas inúmeras habitações à venda em agências imobiliárias]. Um grande lago repleto de ilhas e chaparros a perder de vista. Ilhas e chaparros, nunca ninguém pensou usar estas duas palavras numa mesma frase.
A mim mete-me muito medo; o forte rio que fazia barulho e companhia afogou-se e, agora, resta apenas um silêncio imenso, esmagador, medonho. Sinto-me só, deslocado de um sítio onde não sei se posso estar. Dezoito anos depois já nem o mesmo rio cá está para me receber. Não está cá nada... ninguém.

Muitos estudos foram feitos, no âmbito da psicologia ambiental, no sentido de se perceber o impacto do realojamento dos habitantes da Aldeia da Luz [agora submersa] para a Nova Aldeia da Luz. Na Aldeia da Estrela, o rio corria quase a um quilómetro. Agora está por todo o lado, invadiu a aldeia por todos os lados menos por um. Por onde quer que se olhe a paisagem é a mesma: água. Também na estrela o cemitério teve de ser removido por se encontrar em terras mais baixas.

Onde será maior o impacto? Nos habitantes de uma aldeia acarinhada pela nação, que recebeu toda uma nova e renovada aldeia onde se respira vida, turistas, festas, crianças a correr? Ou numa aldeia de que ninguém fala ou sabe o nome, que foi agoniantemente rodeiada por água. Uma aldeia que parece a mesma, mas é tão diferente. Uma aldeia sem vida onde dificilmente se encontra alguém.
Nos meses que antecederam o fechar das comportas foi feita, por profissionais em várias áreas, uma vasta recolha de material geográfico, biológico, botânico, arquelógico, sociológico e antropológico das zonas a submergir. Ao resultado desta recolha deu-se o nome de Museu da Luz, onde pude encontrar a carroça, a rede de pesca, as ferramentas de marcenaria do meu avô e as peneiras, tábuas de tender o pão e outros utensílios da minha avó. As mesmas terras, os mesmos costumes, um museu com nome errado.

Agora temos água. Muita água. Mas de que serve? "A água vai trazer gente e investimento ao Alentejo", há trinta anos atrás. Agora será, porventura, tarde.
Que se passeiem os barquinhos, que se atrase o plano de aproveitamento dos recursos hídricos na concretização de um sistema integrado de regas...
Terá mesmo valido a pena?
















