Segunda-feira, Setembro 19, 2005

Aldeia da Minha Infância « Parte III » Ti Estrudes

Quando penso na Estrela, a minha mente fervilha de memórias de momentos, actividades, cheiros, risos e sabores...
A minha avó Gertrudes era conhecida na aldeia como a "Ti Estrudes". Tinha a carta de condução e uma carrinha muito curisosa que usava para ir à aldeia mais próxima comprar farinha para fazer pão.
Era uma vez por semana.


Todas as manhãs de tentava levantar ao mesmo tempo que os meus avós, mas era uma tarefa que parecia impossível e se mostrava, quase sempre, inglória. No dia de fazer pão, isto era especialmente verdade. O meu avô, personagem de poucas falas mas sempre sorridente, apesar dos poucos dentes [lembro-me de lhe ter nascido um já em idade avançada], levantava-se para ir ao campo buscar piornos. Os piornos tinham a função dupla de atear o lume no forno para gerar o calor suficiente à cozedura do pão e serviam para fazer aquelas práticas vassouras de campo. As vassouras da semana anterior iam sempre atear o fogo desta semana e dos piornos recém-chegados, surgiam novas vassouras.


A minha avó amassava o pão numa divisão especial da casa, onde se amarzenavam os paios e os melões que pendiam das traves do tecto. Em redor, um conjunto de utensílios de grande utilidade para as tarefas que ali tomavam corpo - as bilhas de barro para a água fresca, as peneiras para a farinha, os alguidares de barro para o pão e para os enchidos e alguns funis para encher garrafões de vinho e azeite.
Fazer o pão encetava, então, todo um novo ritual. Tudo começava com o um pouco de farinha e água morna com o sal. Uma porção de massa que havia ficado reservada da semana anterior era utilizada para fermento. E era então que os braços fortes da minha avó amassavam vigorasamente a mistura com os punhos fechados em forma de murro. Divertia-me a chafurdar, pouco mais poderia fazer... No fim, uma grande tábua de madeira recebia várias porções de massa que dariam origem a duradouros e saborosos pães de cabecinha. Fazia sempre questão de fazer o meu próprio pãozinho com chouriço.


Nem toda a massa era utilizada para pão. Ao que sobrava, a minha avó juntava azeite, ovos e açúcar que davam origem a deliciosos bolos. Juntando banha, ovos e açucar fazia pequenos biscoitos de sabor inesquecível - as popias.