Segunda-feira, Setembro 19, 2005

Aldeia da Minha Infância « Parte V » Mestre Zé

O meu avô Zé era conhecido na aldeia como "Mestre Zé", era moleiro nas azenhas do Guadiana e, apesar de não saber ler nem escrever, guardava em si um conjunto de ofícios cuja aprendizagem me custa ter negligenciado. Tecia redes para a pesca no guadiana, caçava pássaros com a sua caçadeira, fazia marcenaria, cortava cabelo e tinha duas carroças para uso do Macho Fidalgo.


Como não tinhamos água tornava-se necessário ter uma carroça/depósito que se deslocava até à fonte, mesmo à entrada da horta do Ti Chico [personagem que recordo de beber minis na taberna, de pentear o cabelo muito curto com um pente e de falar de uma forma que eu não compreendia]. A água era fresca e pura e era tirada do depósito da carroça através de uma mangueira que me ensinou as primeiras leis da física. Aplicando sucção na extremidade da mangueira a água escorreria então abundante para as cântaras de barro.


A outra carroça era apenas de passeio. Depois do ritual de preparação do Macho [que incluia limpar as grandes narinas com um pano, escovar todo o pelo e afiar os cascos com uma navalha], montavamo-nos na carroça azul onde se podia ler as iniciais do meu avô em Stencil [J.F.B.], e desciamos o acidentado caminho até ao rio.